Rafael Cortez mostra talento na área musical
Defensor de uma sociedade mais culta e questionadora, o profissional, de múltiplas facetas, fala sobre sua trajetória e suas novas realizações
Jornalista e um dos integrantes do programa “CQC”, da Band, Rafael Cortez se consolidou como um dos principais humoristas da nova geração, especialmente na atuação de Stand up Comedy.
O que nem todos sabem é que, além de aparecer todas as semanas na telinha e realizar o show “De tudo um pouco”, Rafael gravou um CD instrumental de violão — uma paixão desde a adolescência — e nos últimos anos tem feito um sério trabalho no resgate de grandes obras da literatura brasileira, por meio de audiolivros, como é o caso do seu recente lançamento “O Meu pé de laranja-lima”.
Defensor de uma sociedade mais culta e questionadora, o profissional, de múltiplas facetas, fala sobre sua trajetória e suas novas realizações. Acompanhe:
Você é ator, jornalista, músico e até palhaço. Qual Rafael chegou primeiro?
O primeiro que chegou foi o Rafael problemático. Só sou o que sou porque em algum momento da minha vida fui muito problemático. Passei por uma fase de transição de criança feliz, imperativa, ambiciosa e criativa, para um adolescente muito problemático. Na adolescência, tudo deu meio errado, e passei a ser um garoto esquisitão, tenso e meio marginal. O que me salvou de um caminho bizarro como drogas, por exemplo, foi o violão, que conheci aos 17 anos e me guiou para um novo estilo de vida. Foi quando o Rafael problemático deu vazão para o cara super intenso e questionador. Dos 20 aos 30 foi quando comecei a trabalhar muito e conheci o prazer de produzir culturalmente, de formas diversificadas. Atualmente, não me vejo só como humorista, só jornalista ou só músico. Sou um pouco de cada uma dessas formações. Tanto que meu show de humor se chama de tudo um pouco.
Por qual dessas funções você tem mais carinho?
É difícil dizer qual lado da minha formação gosto mais. Tenho contrapartidas incríveis em cada espaço. Como jornalista, gosto de ser formador de opinião e adoro viver assim. Como ator, posso encarnar vários personagens e não ser eu mesmo, o que é uma maravilha. Como comediante, tenho acesso a um mundo de oportunidades, como realizar meus shows, viajar, ganhar dinheiro, encontrar pessoas e me divertir horrores. Mas, como músico, tenho acesso a mim mesmo, e gosto do que vejo quando me encontro comigo. Tenho orgulho de ser quem sou e da minha trajetória. Acima de tudo, o violão e a música me colocam em contato com um lado espiritual, etéreo e poético. É o que revela meu melhor lado, é um lado honestíssimo. Não que os outros lados não sejam, mas no jornalismo tem várias artimanhas, no humor um monte de sacanagem, o ator tem vários personagens. Na música, tem só verdades.
O que você esperava do jornalismo?
O jornalismo não foi a minha opção inicial. Tive um problema grave com orientação vocacional. Sou até muito crítico sobre o acesso às possibilidades vocacionais que os jovens têm hoje. Ao longo de quatro anos, prestei nove profissões diferentes e me ferrei muito. Foi bem mais adiante que pensei em fazer jornalismo. E fiz porque achei, acima de tudo, que era uma forma de me expressar melhor, porque adoro me expressar, e queria uma ferramenta para falar em grande escala. Comecei a pensar que o teatro e a música eram ferramentas marginais, porque eu fazia muitos trabalhos assim, mas o público não estava acompanhando. Ninguém mais estava consumindo meus espetáculos, peças e recitais. O público queria entretenimento.
Essa nova opção atendeu suas expectativas?
Sim, porque o jornalista tem um veículo a seu serviço, e o veículo é soberano. Porém, eu não ia trabalhar como jornalista. Gostei de ter feito e pensei que ia quebrar um galho na profissão. Nunca imaginei que teria o meu principal salário, como é hoje, sendo jornalista.
Por que você é crítico das possibilidades vocacionais oferecidas aos jovens?
Porque vejo essa ditadura da faculdade de forma assustadora. Não gosto nenhum um pouco dessa ideia que o jovem aos 13 anos tem de começar a pensar e aos 16 anos saber o que vai fazer para o resto da vida. Além do vestibular ser uma coisa muito maluca e injusta, porque existem colégios muito fracos, com esse sistema educacional que não acompanha a exigência cobrada no momento do exame. Um garoto, assim como eu que sai de colégio estadual, e tem uma formação restrita, é prejudicado. Paguei muito caro por isso.
O Rafael do CQC se realizou com a profissão?
Claro que sim. Me realizei não só como jornalista, mas também como humorista, como ser humano, como cidadão, entre tantas outras maneiras. O CQC foi a continuação de vários sonhos meus. Tenho o maior amor e acho que sou o maior fã do programa. E quando começa as discussões idiotas sobre o CQC ser ou não jornalismo, minha opinião é que não acredito em nenhum tipo de abordagem humorística que não passe pelo jornalismo. Pode pensar no circuito que for. Se você quer fazer piada com quem quer que seja tem ao menos de saber o que aconteceu com as pessoas. O jornalista tem repertório, por isso que acho que é do caralho ser jornalista e fazer humor.
Na sua opinião, o Rafael que trabalha no CQC é mais jornalista ou comediante?
Pode ser que, pela linha editorial, nem seja o jornalista, mas na minha vida e no meu coração é. Sou um jornalista por formação e não um humorista por formação. Logo, quando estou trabalhando, com um microfone na mão, sou jornalista. No palco, na Virada Cultural, nos eventos corporativos sou humorista, mas no CQC, mesmo tratado como comediante, sou jornalista.
Atualmente, existem muitas pessoas que praticam o stand-up comedy e também se auto denominam comediantes. Como você avalia isso?
Quem sou eu para julgar os novos. Também sou um novo humorista, que não estudou comédia e também vive dela. Tenho um show que dá dinheiro que é de comédia. Não tenho gabarito para julgar essas pessoas. Sou um dos que vão ser julgados. O que posso dizer é que sou um grande entusiasta de todas as formas de expressão, inclusive do humor. E nessa vertente acontece a mesma coisa que rola no teatro, na música, dança, cinema etc: Só os melhores vão permanecer quando a febre passar.
Em sua opinião, por que ocorreu essa febre?
Fazia-se muito humor de tipos, a exemplo do Zacarias e o Mussum dos Trapalhões, o stand-up veio para fazer um questionamento de como está a sociedade. Estava precisando acontecer isso, porque com os últimos episódios políticos do país ficamos meio acomodados. Na época da ditadura, que foi muito lamentável, havia um questionamento político. As pessoas estavam mais envolvidas nesse espírito político. No impeachment do Collor ainda havia uma reflexão, mas as novas gerações ficaram acomodadas. Não que nada tenha acontecido, porque aconteceram coisas malucas nesse país, mas acho que deu preguiça. O stand-up veio com uma inovação de conteúdo, nem tanto de formato, porque se for ver, o Chico Anysio fazia stand-up a 50 anos atrás, mas falava de coisas do cotidiano, os novos humoristas chegaram enfiando o dedo em várias feridas sociais, questionando políticas, valores, e até usando as próprias piadas para colocar em pauta os limites do humor, preconceito, entre outros.
Nesse formato vale tudo?
Na minha opinião, o stand-up é bom até quando erra. É bom até quando tem uma piada agressiva ou preconceituosa, porque o humorista leva o tema para sociedade e gera uma discussão. Quem se incumbe de defender ou não é a sociedade. Por isso o formato ficou legal. Estava faltando alguém que obrigasse provocasse as pessoas a pensarem de novo. Esses humoristas provocam. Muitos são apenas entretenimentos barato, mas há muito de confronto e questionamentos.
Como foi sua aproximação com a música?
Na verdade foi de bobeira. Comecei a tocar violão com 17 anos pensando em pegar mulher. Não achava lindo, mas achava bacana. Era um motivo idiota. Eu queria me popularizar e conquistar as garotas.
Quando começou mudar de ideia?
Com o tempo percebi nele um instrumento muito bem resolvido e maravilhoso. Larguei a pretensão idiota de pegador e me apaixonei por sua história, causa e sonoridade. Ele é o melhor instrumento de todos. Uma coisa que sempre digo é que a música te escolhe. A pessoa até escolhe a música por razões mesquinhas, mas quem permanece na música é porque foi escolhido por ela.
De onde veio sua referência de violonista erudito?
Eu tocava violão popular achando que era aquilo que eu queria tocar na minha vida inteira. Adorava tocar MPB, e tinha até um repertório grande. Certo dia fui na casa de um primo, em Piracicaba, e ele tocava violão clássico. Ele tocou duas ou três músicas clássicas e fiquei encantado. Entrei no universo da música erudita pelo violão clássico, que acho a coisa mais linda desse mundo.
Você gravou seu primeiro CD no ano passado e optou por ser uma produção independente. Por quê?
Gostaria muito de ter feito o “Elegia da alma” por uma gravadora. Mas, saiu independente, bancado do meu bolso. Porque, na verdade, meu trabalho musical não interessa às grandes gravadoras. Interesso como humorista e figura pública, mas como músico não. Então, decidi não abrir mão do meu projeto de músico e do que acredito. Não abri mão de fazer um CD instrumental autoral violonístico. Visitei grandes gravadoras, onde fui muito bem recebido e tive conversas legais. Porém, não estava disposto a fazer um CD que não fosse dessa maneira.
Qual foi o maior problema?
Eles dizem que gostam de mim, mas fazer outra coisa que não seja algo engraçado não dá. Não as culpo. Foi um jogo muito claro e ninguém me iludiu. Uma hora apelei, tirei dinheiro do meu bolso e produzi. Não espero pelas oportunidades, gosto de criá-las. Hoje posso me dar o luxo de pagar o meu CD.
A questão das produtoras estarem mais interessadas no Rafael humorista do que no músico, te incomoda?
Não me incomoda em nada que eu seja conhecido pelo humor, e de tabela pelo jornalismo, porque os prós são muito melhores e numerosos do que os contras. Ter me tornado famoso e consolidado como humorista só me dá mais alegria do que dor de cabeça. O que me incomoda é estereótipo em relação ao grande público. Isso é algo que me irrita um pouco. Me irrita as pessoas me sacanearem como músico sem sequer saberem o que estou fazendo. Pessoas me zoam no twitter em relação ao CD. Dizem que como cantor sou um ótimo comediante. As pessoas ainda acham que esse é um CD onde canto. Não tenho problema de rir de mim mesmo nem que riam de mim. Mas, com relação ao “Elegia da Alma”, que é meu filho e tenho um amor incondicional, me irrita muito.
“O Meu pé de laranja-lima” é o quinto audiolivro gravado por você. Os demais foram obras de Machado de Assis. Como surgiu o projeto nessa vertente da sua carreira?
Na verdade surgiu antes do programa CQC, quando fui convidado pela editora Livro Falante. Participei de um teste com atores desconhecidos e foi tão bom que sai gravando. Quando entrei no CQC pedi para gravar mais, porque um problema grave é a falta de mídia para vender audiolivro se ninguém conhece o interprete. Não quero que as pessoas consumam só as minhas coisas engraçadas. Se a gente tem um público, é preciso administrar com responsabilidade. Vamos oferecer para esse público, coisas legais, e fazer com que eles tenham acesso à arte e à cultura. Tenho uma preocupação em fazer com que o adolescente, que é meu público, saia do lugar comum, e da zona de conforto, se provoque e conheça música, literatura, e voltem a falar de livro.
Quais as dificuldades em gravar um audiolivro?
É muito difícil, porque depois que fiz os quatro de Machado de Assis, percebi que o público não compra. É mais marginal que o meu CD. A obra do José Mauro de Vasconcelos foi iniciativa minha. Queria gravar um clássico popular infanto-juvenil e queria que fosse “O Meu pé de laranja-lima”.
Como você se sente em recitar clássicos tão importantes da literatura brasileira?
Me sinto muito realizado, mas fico triste porque gostaria que tivesse mais visibilidade; que tivesse a migração do meu público dos shows de humor para o CD e para os audiolivros. Atualmente, as pessoas não querem pensar muito, e no audiolivro é preciso que elas participem comigo e tenham paciência. Assim como na música instrumental, que não tem letra e nem forma. Porém, estou muito satisfeito de ter realizado esses trabalhos.
Fonte: Panorama Brasil

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