Com 'CGG', Marcelo Tas comemora reencontro com crianças

Em entrevista, apresentador declara seu amor por projetos para o público infantil


Marcelo Tas está sempre inventando alguma coisa. Atualmente, além de liderar a "trupe" do CQC, nas noites de segunda da Band, ele apresenta oPlantão do Tas - esquete cômico do canal infantil Cartoon Network -, atua como colunista em jornais e revistas - como a Crescer - , escreve no Blog do Tas, do portal Terra, e ainda dá palestras sobre Comunicação e História Contemporânea pelo Brasil.

Por fim, em julho deste ano, ele acrescentou mais um compromisso à sua agenda: o Conversa de Gente Grande, ou simplesmente CGG, seu novo programa na Band, com exibição aos domingos, às 20h. "Me sinto esgotado. É muita coisa para fazer e preciso ser organizado para dar conta. O esforço não é só mental, é físico também. Por isso, voltei a praticar esportes", conta o apresentador, que para encarar a labuta tem aulas de boxe.

Natural de Ituverava, interior de São Paulo, Marcelo, 53 anos, frequentou apenas alguns semestres do curso de Rádio e TV da Universidade de São Paulo, em 1980. A graduação foi atropelada pela idealização de quadros e programas para a televisão. Em 1983, estreou na TV Gazeta o Comando da Madrugada, junto com os outros membros da produtora de vídeo independente Olhar Eletrônico - onde figuravam, entre outros, os hoje cineastas Fernando Meirelles e Toniko Melo. Na mistura entre humor e jornalismo, Tas destacou-se ao interpretar Ernesto Varela, repórter fictício que satirizava os principais eventos e nomes da política nacional da época. "O Ernesto me trouxe muitas alegrias e algumas brigas", destaca, entre risos.

Nos anos seguintes, Tas acumulou trabalhos em emissoras como a extinta Manchete, Globo e MTV. E foi na TV Cultura, de São Paulo, que teve seu primeiro contato com o público infantil, ao participar da idealização e execução dos programas de caráter educacional Rá-Tim-Bum, de 1989, e Castelo Rá-Tim-Bum, de 1994, onde deu vida a personagens como o Professor Tibúrcio e Telekid. "Tenho muito orgulho do que fizemos na Cultura. Voltar a trabalhar com crianças me traz boas lembranças", valoriza Tas, que no CGG comanda entrevistas e debates, onde equilibra a participação de convidados como Pelé e Sabrina Sato, com a sinceridade de crianças de três a 11 anos de idade. "Estou me sentindo em casa. Além dos projetos do passado, os integrantes do CQCtêm a mesma idade mental das crianças do CGG, brinca.

Terra - Muitos de seus trabalhos na tevê flertaram com o universo infantil. Falar com esse público o instiga?
Tas -
Sempre. Não é em qualquer programa que os entrevistados falam exatamente o que pensam. As crianças são assim: falam o que vem na cabeça. Estamos lidando com um grau de sinceridade raríssimo na televisão brasileira (risos). A ideia do programa surgiu de uma oportunidade muito preciosa de se produzir algo não só para crianças, mas com crianças. Eu tive, historicamente, a chance de participar de vários programas infantis importantes e lembrados até hoje, como Rá-Tim-Bum e o Castelo Rá-Tim-Bum. O CGG chega em um momento onde a TV aberta ignora as crianças e está perdendo a chance de montar um público.

Terra - Mas você não acha que o público infantil de hoje está mais interessado no conteúdo dos canais pagos?
Tas -
Mesmo que as crianças tenham muitas opções na TV por assinatura e na internet, acho que os diretores da tevê aberta estão cegos quando acreditam que não precisam mais atender a esse público. A Band não tem essa visão. A programação é dividida e tenta agradar ao maior público possível, como o alvo da TV aberta é a família, temos com esse novo programa uma tentativa de conquistar um público heterogêneo.

Terra - E qual o diferencial do CGG em relação aos outros programas que você já comandou?
Tas -
Segue a mesma linha, mas vai além da simples função de continuidade, agrega novidades. A linguagem é ampliada, mas a matéria-prima são as ideias e opiniões das crianças. O Professor Tibúrcio, do Castelo Rá-Tim-Bum, não ouvia ninguém. Agora as crianças têm voz, o que considero um passo arriscado e adiante do que já fiz. Já que mesmo com uma boa equipe de roteiro, ao lidar com essas "ferinhas" é preciso sair do script e ter jogo de cintura para acompanhar o raciocínio deles.

Terra - Você é do tipo que se envolve bastante no processo de construção dos programas que apresenta. As crianças são selecionadas por você antes de participarem do CGG?
Tas -
Não participo da seleção inicial. É claro que dou meus pitacos no roteiro do programa com as crianças que foram escolhidas previamente pela produção. Observo o processo de seleção e fico de olho nas histórias mais curiosas.

Terra - Dessa observação, o que mais chamou a sua atenção?
Tas -
Existe um fato amplo e frequente em quase todas as entrevistas: a visão que os pais têm de seus filhos é, na maioria das vezes, completamente opostas do que as crianças se mostram e são de verdade. Isso é incrível! (Risos) Estou chocado, inclusive como pai, com esta constatação. Durante as entrevistas, vi mães falarem que o filho é medroso e está sempre em dúvida de como agir. Aí você conversa com o menino em questão e ele é totalmente bem resolvido.

Terra - A classificação indicativa do Ministério da Justiça está sempre de olho na participação de crianças em novelas e programas de TV. Existe algum cuidado para que elas não sejam expostas de forma errada?
Tas -
A gente não quer agredir ninguém e as crianças que participam do programa estão no ar por vontade própria, asseguradas por seus pais. A gente não dá muitos limites, mas é claro que temos bom senso. No início do projeto, até achamos mais adequados chamar crianças a partir dos nove anos de idade. Mas aí foram surgindo personagens interessantes de oito, sete, seis, cinco, quatro... Até que apareceu na minha frente um "micróbio" de três anos de idade. Foi uma das entrevistas mais estranhas da minha vida! (Risos)

Terra - Por quê?
Tas -
Parecia que eu estava falando com um feto! (Risos) Os mais novos são os que trazem os assuntos mais ousados. Falam de acordo com a sua lente de aumento sobre violência dentro e fora de casa, sexo e drogas. Tudo com muita naturalidade. Teve uma menina de quatro anos que me deu uma aula sobre o fim do mundo e o que a gente precisa fazer para evitá-lo.

Terra - O CGG vai ao ar em uma faixa de muita competitividade e com programas já estabelecidos, como o Domingão do Faustão, da Globo, e o Programa Silvio Santos, do SBT. Por que esse horário?
Tas -
Foi uma decisão do artístico e executivo da Band. Não tenho nada contra. É uma aposta da emissora exibir um programa diferente do que todo mundo já sabe que vai encontrar na TV. Estamos entrando nessa briga sem grandes expectativas.

Terra - Você é o quarto integrante do CQC a comandar um programa solo na Band. Era um desejo antigo seu?
Tas -
Era uma vontade da Band. Eu não tinha nenhum projeto neste sentindo. O que faço hoje na Band já é bem desgastante. O CQC me dá muito trabalho e continua sendo minha prioridade dentro da emissora. Tem alguns anos que a direção artística tenta me convencer a ter outro programa, algo que eu adiei ao máximo. Tanto que eu queria que o CGG estreasse apenas em 2013. Acabei vencido, pois o projeto amadureceu muito do ano passado para cá.

Terra - Sua participação no CQC ficou comprometida com as gravações do novo programa?
Tas -
A produção agendou a gravação dos pilotos e dos primeiros episódios do CGG de forma que não afetasse minha participação no programa principal. Para não ficar com a agenda muito apertada, estou gravando o novo programa desde fevereiro. Para ser bem sincero, acho que depois que comecei a apresentar os dois projetos, meu desempenho no CQC melhorou. Ao trabalhar com crianças de verdade, passei a lidar melhor com Marco Luque e Oscar Filho (risos).

Terra - O CGG é baseado no argentino Agrandadytos, propriedade da Eyeworks ¿ produtora portenha também responsável por outros programas da Band, como o CQC e A Liga. Como o formato chegou até você?
Tas -
Vi pouco da versão argentina. Não importamos o formato de fato. O processo de criação começou do zero. Trabalhamos em cima de muitos formatos que estão no ar na televisão mundial. Adquirimos o direito de vários quadros e detalhes que, eventualmente, podemos usar. O engraçado é que são coisas já utilizadas pela TV brasileira mas que hoje têm a concepção patenteada por alguma produtora. O CQC, que é um programa importado, com formato mais clássico e rígido, também teve o projeto de criação expandido para se adequar à realidade brasileira.

Terra - O CQC está em sua quinta temporada e você acaba de estrear o CGG. Depois de passar por diferentes emissoras, você acredita que se encontrou na Band?
Tas -
Estou feliz. Me sinto respeitado e valorizado dentro da emissora. Sempre prezei pela minha liberdade artística e tenho isso na Band. É possível ver isso na espontaneidade de conteúdo do CQC e agora do novo programa. Tenho visibilidade e estrutura para mostrar o meu trabalho, sem ter de largar meus outros projetos dentro da televisão, como o Plantão do Tas, que apresento no Cartoon Network. E, fora dos estúdios, como palestras Brasil afora, colunas em jornais e revistas e o blog que mantenho no portal Terra.

Voz ativa
A veia autoral de Marcelo Tas pulsa forte. Desde os primeiros trabalhos na TV Gazeta, ele já participava da criação e concepção dos programas arquitetados pelo coletivo independente Olhar Eletrônico. Hoje em dia, com o foco na tevê, mas cheio de projetos paralelos, Tas limita-se a apresentar, mas com a liberdade de dar seus pitacos em questões técnicas e de conteúdo dos projetos que comanda na Band. "Sou inquieto. Algumas vezes até me meto onde não devo. Mas é meu jeito de trabalhar. Preciso criar alguma identificação com os programas que estou envolvido", analisa.

O discurso na prática pode ser visto na direção quase imperceptível do CQC, onde ao lado de Marco Luque e Oscar Filho, o apresentador sugere novas pautas e chega a alterar a ordem do roteiro. "O programa é ao vivo. No contato com o público, algumas coisas funcionam melhor que outras", acredita. A postura repete-se no novoCGG, onde Tas não se prende ao script e segue a fértil imaginação de seus convidados mirins. "É uma loucura! Surgem coisas que não foram acordadas o tempo todo. Mas quem sou eu para podar uma criança?", questiona, aos risos.

Ator escondido
Além dos personagens cômicos e dos tipos infantis que interpretou em programas dos anos 80 e 90, Tas chegou a atuar no especial da Globo O Alienista, de 1993, baseado na obra de Machado de Assis. "Foi uma brincadeira. Interpretei um repórter e fui dirigido pelos amigos Guel Arraes e Jorge Furtado", relembra. Além da tevê, ele também já mostrou sua porção ator nos palcos. Em 2005, adaptou algumas aventuras do intrépido repórter Ernesto Varela para o teatro no espetáculo A História do Brasil Segundo Ernesto Varela - Como Chegamos Aqui?. "A peça fez muito sucesso e já me pediram para voltar. Infelizmente, não tenho tempo. Penso em atualizar o espetáculo e reestrear no ano que vem, quando o personagem completa 30 anos", avisa.

Trajetória Televisiva
Comando da Madrugada (Gazeta, 1983) - Ator, diretor, roteirista e produtor.
Ernesto Varela, o Repórter (Gazeta, 1983 - 1986) - Apresentador, diretor e roteirista.
23º Hora (Gazeta, 1983) - Apresentador e diretor.
Antenas (Gazeta, 1983) - Produtor.
Crig-Rá (Gazeta, 1984) - Apresentador.
Vídeo Show (Globo, 1987) - Apresentador.
O Mundo no Ar (Manchete, 1987) - Apresentador, diretor, roteirista e produtor.
Rá-Tim-Bum (Cultura, 1989) - Ator, diretor e roteirista.
Os Netos do Amaral (MTV, 1991) - Ator, diretor e roteirista.
Programa Legal (Globo, 1991 - 1992) - Roteirista.
O Alienista (Globo, 1993) - Ator.
Castelo Rá-Tim-Bum (Cultura, 1994) - Ator, diretor e roteirista.
Professor Planeta (ESPN Brasil, 1995 - 1997) - Ator, diretor e roteirista.
Telecurso 2000 (Globo, 1995 - 1997) - Diretor de criação.
Minuto Científico (Cultura, 1996) - Roteirista.
Oficinas Culturais (Cultura, 1998) - Diretor de criação.
Vitrine (Cultura, 1998 - 2005) - Apresentador e diretor.
Saca Rolha (Rede 21, 2006) - Apresentador.
CQC - Custe o Que Custar (Band, 2008 - 2012) - Apresentador
Plantão do Tas (Cartoon Network, 2010 - 2012) - Apresentador.
CGG - Conversa de Gente Grande (Band, 2012) - Apresentador.

Fonte: Terra

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