Dos cantos ao silêncio, argentinos e brasileiros "secam" em vão
"Te alentaremos de corazón, esta hinchada que te quiere ver campeón" (Te incentivaremos de coração, esta torcida que te quer ver campeão, em tradução livre). O som ambiente é altíssimo, quase impossível conseguir manter uma conversa com a pessoa ao lado. Alguns, poucos, arriscam balançar as mãos, como fazem os torcedores de barras argentinas. Uma hora antes do início da final da Copa Libertadores a tensão sobrepunha a animação. E assim seria por toda a noite em uma pizzaria da zona sul de São Paulo.
Na ruas, silêncio. Poucos carros passavam e arriscavam buzinar. Nada de fogos ou gritaria. Eram esperadas cerca de 100 pessoas na casa, boa parte de argentinos. Explicável: o dono do Fugazzeta é "hermano", nascido no bairro de La Boca. Bexigas azuis, amarelas, pretas e brancas enfeitavam o ambiente. Um boneco gigante de Riquelme também. As mesas iam lotando, mas o clima continuava estranho.
"É que hoje (quarta-feira) pode ser o último dia em que poderemos falar que eles não têm Libertadores", disse William Lemes, são-paulino. "Se o Corinthians jogar contra o time do canil, estarei latindo", completou Walter Rodrigues, palmeirense. Santistas, palmeirenses e são-paulinos sabem: poderiam estar a poucas horas do fim da piada mais óbvia do futebol paulista.
Estamos em 2012. Se o famoso calendário Maia apontava o fim do mundo, talvez fosse a última oportunidade do Corinthians em conquista a tão sonhada taça. "Se acontecer, é o pior ano da minha vida", lamentou por antecipação Diego Gabriel, são-paulino. Com uma camisa do Boca, é mais um que tentou secar o rival. "Só quero passar o bastão para eles. É meu último dia como campeão da América", fala Jonatas de Cássio, santista.
Palmeirenses e santistas já perderam uma final de Libertadores para o Boca. Mas não têm traumas. "Quem vive de passado é museu", diz Rafael Lima, torcedor do Palmeiras. "Hoje (quarta-feira) o Boca é Brasil", completou Daniel Dicov, também fã do alviverde da capital. Quase hora do jogo, e começavam a chegar argentinos. Já era hora.
Enquanto Ronald Rios, repórter do CQC, faz piadas com o Corinthians para os clientes, Franco Ocaranza, argentino e xeneize, sai um pouco da frente da televisão. Nervoso, mas bem-humorado, diz que o objetivo era igualar o número de taças do Independiente, maior vencedor da Copa, com sete. "Seria o máximo, ainda mais ganhando aqui no Brasil", disse. "E é muito bom ter o apoio dos brasileiros", completou.
Em outro canto da casa, o dono, Miguel Angel, conversava com Claudio Guerreros em espanhol. Guerreros é uruguaio, e faz piada: "no último censo do Brasil, confirmaram que são 30 milhões de corintianos, e 170 milhões contra", se divertia. Torcedor do Peñarol, Miguel apoiou o Boca durante a decisão. E disse que o clube argentino iria vencer nos pênaltis, ao estilo "La Pico", a cavadinha, assim como Loco Abreu fez na Copa do Mundo de 2010. Angel ri, e completa: "vamos acabar com o reinado do Independiente".
Alex erra uma falta, gritos. Orión se machuca, entra Sosa: aplausos para o goleiro reserva. Emerson cruza com perigo, gritos surgem. Muitas mulheres estavam no recinto. Duas delas, corintianas. Elisângela Levingo, com a camisa alvinegra, não largava a buzina. E nem do marido, Norberto, que é argentino, usava camisa do Palmeiras mas é torcedor do Racing. "Porém, hoje, todos somos Boca", diz. A mulher apertava mais forte a buzina.
Mas os xeneizes respondiam com uma vuvuzela. Adriano Assi, com uma camisa da Penapolense, do interior de São Paulo, secava o Corinthians. "O que importa é torcer contra". O Boca conquista um escanteio com raça. Vibração. Nada acontece, o clima esfria. Enquanto isso, o boneco de Riquelme é beijado por uma bela loira que usa uma camisa da Argentina.
Intervalo, hora das bebidas. Mas nem isso animava a maioria. Ocaranza sim. Ele espera alguns minutos de segundo tempo para pegar o boneco de Riquelme e sai correndo com ele pelo recinto. Agradeçam, corintianos. Foi só Riquelme mudar de lugar em Moema que, no Pacaembu, Emerson Sheik colocou a bola nas redes. No mesmo segundo. Coincidência?
O clima, que já não era dos mais animados, mudou. Cabeças baixas, mãos nas testas. Elisângela estourava bexigas com as cores do Boca. É o que quebrava o silêncio, que predominava por mais alguns minutos. Gol. Emerson novamente. Dessa vez, diversos braços levantam, brasileiros e argentinos. Comemoração? Não. Buscavam a conta. A pizzaria esvaziava. O sonho acabou.
"O problema é que corintiano é chato demais", diz Gabriel. Ninguém mais quer falar, o silêncio é completo. Ou quase. "Pega, mata, bate, quebra", só se ouvia isso nos minutos finais da partida. Queriam apelação. Não ocorreu.
O juiz apita. Fogos surgem. O Independiente ainda é o maior campeão da Libertadores. O Corinthians já tem um título da competição. É o fim das piadas. É o fim das músicas. Nos estádios e na pizzaria. A noite não é argentina, nem dos "antis". Sucesso, ali, apenas as pizzas. Pelo jeito, a vitória argentina foi apenas gastronômica. Não era o objetivo da noite.
Fonte: Terra
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