Jornalismo de constrangimento
Depois de uma briga generalizada, o Itamaraty vetou a presença dos integrantes do CQC em eventos com convidados internacionais ou com a presidenta Dilma e pôs lenha na discussão dos limites entre jornalismo de entretenimento e jornalista-entretenimento
Atabalhoados cerca de 100 jornalistas em apenas uma sala, o que de lá sai são cerca de 100 histórias diferentes. Ou melhor, versões. Fato é que quando a secretária do Estado americano Hillary Clinton esteve no Palácio do Itamaraty para uma entrevista coletiva, os repórteres não foram o canal para a reportagem chegar ao público – eles foram a própria matéria. Mauricio Meirelles, repórter do “jornalístico-humorístico” da Band CQC foi para a coletiva de Hillary e esteve no olho do furacão após entregar uma máscara carnavalesca para a equipe da secretária, além de ter gritado “Hillary, I love you” (Hillary, eu te amo, em inglês) momentos antes.
Confusão generalizada, repórteres prometendo agressões entre si e um disse-me-disse de lá e cá. Meirelles e Gustavo Noblat, produtor do CQC, dizem que eles foram provocados. Sergio Leone, do Valor Econômico, que era Noblat quem incitava uma briga, enquanto proferia palavrões. Por fim, segundo a jornalista Vera Magalhães, da Folha de São Paulo, após reclamações dos jornalistas de veículos tradicionais, o Palácio do Planalto resolveu vetar o CQC dos próximos eventos e viagens da presidenta Dilma Rousseff.
A confusão ocorreu no último dia 17 e o veto no dia 19 de abril. Já no dia seguinte, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal publicou nota em que escancara a rusga com o CQC. No comunicado, o Sindicato defende que “Sem desmerecer o trabalho humorístico (...) a nossa sociedade carece, em maior grau, de informações de qualidade e, nesse sentido, defendemos sempre a preponderância da atividade jornalística sobre a humorística”. Disso, se extrai que, para o Sindicato, o objetivo principal do CQC é o humor, não a informação, logo, o programa não é jornalístico.
Na última segunda-feira veio a retaliação do CQC e de Marcelo Tas, apresentador do programa. Dizendo-se vítimas tanto de uma privação da liberdade de imprensa quanto da de expressão, Tas apontou que a tendência de amordaçamento pode pender para quaisquer meios de informação – até aqueles que pediram o veto ao CQC. Para o jornalista Carlos Brickmann, em artigo assinado no site Observatório da Imprensa, a atitude mostra a “face autoritária e desconhecedora do que seja a liberdade de expressão” do Governo brasileiro, citando o Sindicato brasiliense como ainda mais perdido ao tentar monopolizar a distribuição de coleta e distribuição de informações.
Na contramão do que dizia, porém, Brickmann avisa que nem mesmo considera o CQC como jornalismo. No mesmo caminho, o professor da Universidade Federal do Ceará Tadeu Feitosa é outro a defender que o CQC é muito mais “meia dúzia de pessoas preocupadas com a audiência” do que um grupo de mediadores culturais. O pesquisador rechaça essa postura vitimista adotada por Tas. “Eu fico muito preocupado com esse álibi que determinada postura jornalística tem defendido. Em nome de uma suposta liberdade de expressão saem do humor para o escárnio”, disse.
Segundo Tadeu, a falta de ética com que os integrantes do programa tratam determinados assuntos quebram a liturgia de espaços como o Senado. Para o professor, outros momentos do programa mostram que, quando querem, seus integrantes conseguem imprimir um teor mais jornalístico, porém o escárnio tende a ser a via escolhida. Para Yuri Leonardo, um dos responsáveis pelo segmento Aerolândia, o humor e o jornalismo podem andar juntos, mas mantendo a cautela. Segundo ele, o projeto Aerolândia se apropriava dos códigos do jornalismo impresso, mas mantinha-se claramente no campo ficcional, algo que o CQC não faz. Para Yuri, mesmo o humor deve ser tomado de forma crítica e social, no que concorda com Tadeu ao apontar a falta de ética na busca da audiência como a falha mais grave dos “jornalistas-humoristas”.
Fonte: O Povo
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